Agricultura conservacionista e atuação social são destaques entre vencedoras
A agricultora Flávia Saldanha, à frente da Fazenda Califórnia, em Jacarezinho (PR), foi a vencedora na categoria Grande Propriedade este ano, graças a adoção de práticas conservacionistas do solo, a fim de atingir uma maior eficiência produtiva com a mitigação dos impactos ambientais e sociais decorrentes na produção de café e grãos. Dentre as atividades adotadas por ela na propriedade, os principais destaques se concentram na preservação dos ecossistemas, proteção da vida silvestre, uso racional das fontes de energia, dos recursos hídricos e manejo adequado para conservação do solo.
Desde que assumiu a propriedade em 2004, ela procurou implementar um sistema de produção sustentável de cafés especiais e grãos que, além da qualidade, trouxesse rentabilidade, visibilidade, valorização e reconhecimento no mercado. Esse esforço contínuo resultou em um aumento substancial da produção e na conquista de certificações prestigiadas, como a Rainforest, além de prêmios nacionais e internacionais em concursos de qualidade de café. Flavia também abre as portas da fazenda para visitas mensais de escolas do município, proporcionando palestras e atividades lúdicas sobre educação ambiental, que se tornaram parte integrante do currículo anual dos alunos e reforçam sua preocupação com a sociedade no entorno de seu município.
Já o primeiro lugar na categoria Média Propriedade, ficou com Ingrid Graziano, da Fazenda Grota, em Formosa (GO), destacada por também ter a sustentabilidade como norteador de suas práticas agrícolas. Ela é a responsável pelo processo de transição da produção de pecuária de corte, movendo-se de um sistema de cria, para uma abordagem centrada no melhoramento genético. Como gestora, implementou práticas de manejo agronômico e animal que buscam a máxima integração do ecossistema, construindo um sistema produtivo centrado na saúde do solo. A utilização de bioinsumos, culturas de cobertura e manejo holístico de pastagem fazem parte dessa abordagem, utilizando a pecuária como uma ferramenta para regenerar o ambiente e o solo.
Durante seus oito anos à frente da propriedade, Ingrid liderou reformas estruturais significativas, como a recuperação de pastagens e a construção de uma fábrica de ração, o que resultou na duplicação da capacidade de lotação da fazenda. Para ela, no entanto, a mudança mais significativa foi o investimento contínuo na capacitação e no envolvimento dos colaboradores, os quais agora desempenham papéis ativos e decisivos no cotidiano da propriedade. Além das fronteiras de sua porteira, a produtora ainda é uma mentora e apoiadora ativa da comunidade local. Presta assistência aos pequenos produtores regionais, oferecendo serviços valiosos, como o preparo de solo e a aplicação de fertilizantes, demonstrando sua preocupação e compromisso com o desenvolvimento sustentável da região.
O compromisso com uma cafeicultura conservativa foi um dos principais pontos que chamaram a atenção dos jurados, rendendo para Ana Paula Curiacos, da Fazenda Três Meninas, em Monte Carmelo (MG), o primeiro lugar na categoria Pequena Propriedade. Por lá, um dos principais destaques da gestão de Ana Paula, foi o estudo minucioso ao implantar técnicas que dão condições de regeneração e conservação do solo, prezando por um manejo de baixo impacto embasado na ciência para poupar recursos naturais.
Como proprietária e gestora da fazenda, ela se dedica à produção de café especial em uma área de 54 hectares onde implementa práticas de agricultura conservacionista, promovendo a manutenção de cobertura permanente no solo, favorecendo a nutrição do café e garantindo a disponibilidade de água, alem de fomentar a biodiversidade local. O manejo integrado do solo tem sido a chave para a produção de um café de qualidade, aliada aos altos níveis de produtividade. Antes da implementação dessas técnicas, a produção não ultrapassava 30 sacas por hectare; hoje, já alcança 54 sacas e uma redução de cerca de 47% nos custos com adubação.
Nos sete anos de existência da Fazenda Três Meninas, mais de 11 mil árvores foram plantadas, enriquecendo a presença de espécies nativas como jequitibá rosa, fedegoso, guapuruvu, cedrinho, ingá, crotalária, nabo-forrageiro e feijão guandu. Com o objetivo aumentar ainda mais a biodiversidade local, Ana Paula está realizando um estudo para adicionar abelhas nativas à cultura do café, a fim de polinizá-lo. A propriedade também mantém parcerias com institutos de pesquisas e centros acadêmicos para levantamentos de dados, realização de estudos técnicos e compartilhamento de experiências entre estudantes, pesquisadores e produtores.

O Nordeste em destaque
Desde a primeira edição, em 2018, mais de 1.100 mulheres já inscreveram suas histórias no Prêmio Mulheres do Agro, que, considerando as vencedoras desde ano, já reconheceu 54 produtoras rurais e uma pesquisadora, por seus projetos de pesquisa com impactos para o setor ou de grande alcance científico. Em 2023, a premiação completa seis anos e o número de inscrições registrou uma alta de 113% desde sua criação. O destaque fica por conta da região Nordeste, que alcançou um marco inédito com o aumento de 371% nas inscrições, em comparação a 2022, totalizando 33 mulheres inscritas somente este ano, de diferentes estados.
Para Isabela Fagundes, especialista de Comunicação Corporativa da Bayer no Brasil, o Prêmio Mulheres do Agro tem como missão dar o destaque merecido ao protagonismo das mulheres atuantes no agronegócio de todas as regiões do país, reconhecendo sua valiosa contribuição e incentivando o seu trabalho no campo – e, também fora dele (com a nova categoria sobre pesquisa).
“Este ano tivemos uma proximidade grande com as produtoras rurais do Nordeste, pois, após avaliações internas, notamos que a premiação não chegava até elas, mesmo sendo uma região com forte protagonismo feminino no setor. Por este motivo, decidimos, então ir até lá, com diferentes ações, o que nos resultou essa alta participação delas este ano”, conta.
Segundo Gisele Balbinot, diretora executiva da Abag o crescente número de mulheres se inscrevendo em cada edição do Prêmio Mulheres do Agro reflete a importância do trabalho das produtoras rurais para o fortalecimento e projeção do agronegócio brasileiro em escala global.
“Elas desempenham um papel crucial em nosso setor e este reconhecimento é uma forma de homenagear cada mulher que trabalha no campo, na agroindústria, na pesquisa e nas universidades”, finaliza.
